20.11.2024

O impacto das alterações climáticas nas estratégias de investimento globais

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As alterações climáticas já não são uma ameaça distante — são uma realidade que está a mudar o nosso planeta e, por consequência, o modo como o mundo investe. A subida do nível do mar, os fenómenos meteorológicos extremos e as temperaturas em mudança são prova inegável de um clima em rápida transformação, e as repercussões ecoam por todo o globo, incluindo nos mercados financeiros.

A comunidade científica concorda de forma esmagadora que as actividades humanas, sobretudo a queima de combustíveis fósseis, são o principal motor desta crise climática. As consequências possíveis são imensas: de graves perturbações económicas e instabilidade social até migrações em massa e escassez de recursos.

De forma alarmante, os dados recentes sublinham a escalada da crise: as emissões trimestrais mundiais de gases com efeito de estufa (GEE) subiram 2.5% no primeiro trimestre de 2024, uma aceleração significativa face a períodos anteriores. Os últimos relatórios da UNFCCC estimam uma variação de temperatura de 2.5-2.9°C e sublinham a urgência de alcançar emissões líquidas nulas de CO2 para travar mais aquecimento.

Perante estes desafios, os investidores de todo o mundo vêem-se obrigados a reavaliar estratégias e carteiras. Este artigo mergulha a fundo no modo como a crescente crise climática está a remodelar o panorama do investimento, com atenção especial às mudanças transformadoras em curso na Europa. Das obrigações verdes aos projectos de energias renováveis, vamos examinar as abordagens inovadoras adoptadas para navegar num mundo em mutação.

 

As alterações climáticas como factor de risco para o investimento

Riscos físicos

Os fenómenos meteorológicos extremos, marca das alterações climáticas, ameaçam directamente empresas, cadeias de abastecimento e infraestruturas em toda a Europa. As consequências vão de rupturas na produção e na distribuição a danos físicos em activos e instalações. A subida do nível do mar, por seu lado, põe em risco imóveis e infraestruturas costeiras, com possível desvalorização e custos operacionais mais altos.

Em 2021, cheias devastadoras na Alemanha e na Bélgica causaram milhares de milhões de euros em prejuízos, paralisaram a produção industrial e atingiram infraestruturas críticas. O sector agrícola do sul da Europa tem enfrentado secas e ondas de calor recorrentes, que afectam colheitas e produção pecuária. A infraestrutura energética também é vulnerável: tempestades e cheias provocam por vezes cortes de energia e rupturas na cadeia de abastecimento.

Riscos de transição

A passagem a uma economia de baixo carbono traz o seu próprio conjunto de desafios e riscos para os investidores. Mudanças de política, como regras de emissões mais apertadas ou a fixação de um preço para o carbono, podem afectar muito as empresas. Viragens tecnológicas, como a ascensão das renováveis e dos veículos eléctricos, podem abalar indústrias tradicionais e tornar certos activos obsoletos. Alterações no comportamento do consumidor, movidas por maior consciência climática, podem fazer cair a procura de produtos e serviços intensivos em carbono.

A indústria dos combustíveis fósseis enfrenta riscos de transição significativos, já que a procura de petróleo e gás deverá cair com o tempo. Os fabricantes de automóveis dependentes do motor de combustão terão de se adaptar à revolução eléctrica ou arriscam ficar para trás. Empresas de sectores muito carbonizados como o aço, o cimento e a aviação enfrentam igualmente grandes desafios na transição para práticas mais sustentáveis.

Riscos de responsabilidade

O enquadramento legal em torno das alterações climáticas está a evoluir, e as empresas podem enfrentar responsabilidades jurídicas e financeiras crescentes por contribuírem para o problema ou por não se adaptarem. Os accionistas podem processar empresas que não divulguem adequadamente os riscos climáticos ou não ajam o suficiente para os mitigar. Comunidades afectadas pelas alterações climáticas podem exigir compensação a empresas responsáveis por emissões significativas.

Num caso marcante, em 2021 um tribunal neerlandês ordenou à Shell que reduzisse significativamente as emissões de carbono, considerando a empresa parcialmente responsável pelas alterações climáticas. Essa decisão sinalizou uma possível viragem para maior responsabilização das empresas pelos impactos climáticos. Vários países europeus assistiram também a acções judiciais contra governos e empresas por alegada inacção climática, o que evidencia os crescentes riscos legais e reputacionais associados à crise.

 

A ascensão dos investimentos sustentáveis

Investimento ESG

O investimento ESG, sigla para ambiental, social e de governação, é uma abordagem que considera o impacto ambiental de uma empresa, a sua responsabilidade social e as suas práticas de governação a par das métricas financeiras tradicionais. Reconhece que o sucesso de uma empresa a longo prazo não é determinado apenas pelo desempenho financeiro, mas também pelo seu efeito no planeta e na sociedade.

A popularidade do investimento ESG disparou nos últimos anos, à medida que os investidores reconhecem cada vez mais a relevância financeira dos factores de sustentabilidade. Empresas com bom desempenho ESG são muitas vezes vistas como menos arriscadas e mais resistentes perante as alterações climáticas e outros desafios. Além disso, muitos investidores são movidos pelo desejo de alinhar os seus investimentos com os seus valores e de contribuir para uma mudança positiva.

Vários fundos europeus de investimento ESG têm apresentado um desempenho impressionante, atraindo entradas significativas de capital. Por exemplo, o Pictet-Global Environmental Opportunities Fund, que investe em empresas que impulsionam a transição para uma economia sustentável, tem batido de forma consistente o seu índice de referência nos últimos anos.

Do mesmo modo, o Nordea 1 - Global Climate and Environment Fund, focado em soluções climáticas e protecção ambiental, entregou retornos sólidos ao mesmo tempo que contribuiu para um planeta mais limpo.

Investimento de impacto

O investimento de impacto vai um passo além do ESG ao procurar activamente gerar impacto social ou ambiental mensurável a par do retorno financeiro. Estes investidores canalizam capital de forma intencional para responder a problemas prementes como a pobreza, a desigualdade e as alterações climáticas.

Os fundos europeus de investimento de impacto desempenham um papel vital ao impulsionar mudanças positivas em vários sectores. O Triodos Impact Investment Fund, por exemplo, foca-se em energias renováveis, agricultura sustentável e habitação social, contribuindo para uma sociedade mais verde e mais justa. O Big Society Capital Fund, por sua vez, apoia empresas sociais e instituições de solidariedade que combatem problemas sociais no Reino Unido.

Obrigações verdes e outros instrumentos financeiros sustentáveis

As obrigações verdes, apresentadas no artigo anterior, são instrumentos de dívida usados para financiar projectos amigos do ambiente, como energias renováveis, eficiência energética e transporte limpo. Tornaram-se uma ferramenta popular para empresas e governos que procuram levantar capital para iniciativas sustentáveis.

Além das obrigações verdes, surgem outros instrumentos financeiros sustentáveis, como as obrigações sociais e as obrigações ligadas à sustentabilidade. As obrigações sociais financiam projectos com resultados sociais positivos, como habitação acessível ou acesso a cuidados de saúde.

As obrigações ligadas à sustentabilidade prendem os pagamentos de juros de uma empresa ao cumprimento de metas de sustentabilidade definidas à partida, incentivando o progresso em objectivos ambientais e sociais.

 

Adaptar as estratégias de investimento a um clima em mudança

Integrar a avaliação do risco climático

Num mundo cada vez mais marcado pelas alterações climáticas, é imperativo que os investidores avaliem os riscos ligados ao clima quando tomam decisões. Ignorá-los pode traduzir-se em perdas financeiras significativas e em oportunidades falhadas. Avaliar o risco climático é medir o impacto potencial dos riscos físicos, de transição e de responsabilidade sobre uma empresa ou uma carteira.

Existem várias ferramentas e enquadramentos para ajudar os investidores a avaliar estes riscos. A Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) apresenta recomendações para que as empresas divulguem os seus riscos e oportunidades climáticos.

O Carbon Disclosure Project (CDP) recolhe e analisa dados sobre os impactos e as estratégias climáticas das empresas. Vários fornecedores externos oferecem serviços de avaliação de risco climático, ajudando os investidores a identificar e a gerir vulnerabilidades possíveis.

Investir em soluções climáticas

Entre os desafios das alterações climáticas há também oportunidades de investimento significativas em sectores que contribuem para a mitigação e a adaptação. As energias renováveis, como a solar e a eólica, expandem-se rapidamente e oferecem potencial de retornos atractivos.

A tecnologia limpa, incluindo o armazenamento de energia, as redes inteligentes e os veículos eléctricos, é outra área promissora. Empresas ligadas à agricultura sustentável, à gestão da água e a infraestruturas resistentes ao clima representam também oportunidades.

A Europa acolhe várias empresas na vanguarda das soluções climáticas. A Vestas, fabricante dinamarquesa de turbinas eólicas, é líder mundial em energias renováveis. A Siemens, conglomerado alemão, participa activamente no desenvolvimento de soluções de energia limpa e eficiência energética. A Ørsted, empresa energética dinamarquesa, concluiu com êxito a passagem dos combustíveis fósseis às renováveis, tornando-se um modelo de transformação sustentável.

Dialogar com as empresas sobre acção climática

O activismo accionista e o diálogo desempenham um papel decisivo na promoção da sustentabilidade empresarial. Os investidores podem usar a sua influência para levar as empresas a adoptar práticas mais amigas do clima, a divulgar riscos climáticos e a fixar metas ambiciosas de redução de emissões.

Várias iniciativas accionistas bem-sucedidas na Europa demonstraram a força do diálogo. A Climate Action 100+, iniciativa global de investidores, dialogou com alguns dos maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo, pressionando-os a agir face às alterações climáticas.

O movimento Follow This apresentou resoluções de accionistas em grandes petrolíferas, apelando a que alinhassem as estratégias de negócio com as metas do Acordo de Paris. Estes esforços evidenciam a importância crescente do activismo accionista para impulsionar a acção climática das empresas.

 

Conclusão: o investidor com consciência climática

O impacto das alterações climáticas no panorama global do investimento é inegável. Dos riscos físicos e de transição às crescentes preocupações de responsabilidade, os investidores têm de navegar um ambiente complexo e em evolução. Ainda assim, entre os desafios há também oportunidades significativas em investimentos sustentáveis, incluindo o investimento ESG, o investimento de impacto e as obrigações verdes.

O investidor com consciência climática de hoje precisa de conhecer tanto os riscos como as oportunidades ligados às alterações climáticas. Integrar a avaliação do risco climático nas decisões de investimento é crucial para gerir perdas potenciais e identificar oportunidades promissoras. Investir em soluções climáticas e dialogar com as empresas sobre acção climática pode contribuir ainda mais para um futuro sustentável.

Perante o desafio urgente das alterações climáticas, os investidores têm uma oportunidade singular de impulsionar mudanças positivas. Ao adoptar práticas de investimento sustentável e ao defender a responsabilidade das empresas, podemos contribuir para um futuro mais resistente e mais justo para todos. As escolhas que fazemos hoje moldarão o mundo de amanhã.

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